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Cuidado com meio ambiente será o principal desafio na implantação de barcas na Barra

Anunciada pela prefeitura, linha que conectará Península a metrô em 15 minutos deve entrar em operação até dezembro

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Até o fim do ano, a prefeitura do Rio deve iniciar a operação de uma nova linha de transporte hidroviário. Com cerca de quatro quilômetros de extensão e seis paradas, o serviço ligará o condomínio Península à estação de metrô Jardim Oceânico, na Barra. A expectativa é que a viagem dure 15 minutos. Na opinião de especialistas entrevistados pelo Fórum Rio, manter o equilíbrio do ecossistema da Lagoa da Tijuca é o principal desafio na criação da nova conexão.

“A questão ambiental é essencial”, afirma Rilley Rodrigues, gerente de competitividade industrial e investimentos da Firjan. Desde 2011, a entidade estuda a viabilidade do transporte hidroviário na região metropolitana do Rio (RMRJ). De acordo com Rilley, um número muito grande de viagens no trajeto escolhido pela prefeitura pode espantar cotias, jacarés e outros animais que habitam aquela área. Isso pode resultar em uma maior desorganização de um bioma já hoje comprometido. Um levantamento de janeiro do Inea classificou o nível de proteção da fauna aquática na Lagoa da Tijuca com o segundo pior indicador em uma escala de quatro categorias. “A concessionária que for atuar ali vai precisar saber operar o serviço tão bem quanto preservar o meio ambiente”, acredita Rilley.

transporte hidroviário barra

Já o assoreamento é a principal preocupação de Sérgio Ricardo em relação ao projeto. De acordo com o fundador do Movimento Baía Viva, várias partes da Lagoa da Tijuca foram alvo de aterros para a construção de imóveis nas últimas décadas. Além disso, o desmatamento das margens por conta da expansão imobiliária reduziu a capacidade de absorção de sedimentos pelo solo e aumentou o depósito desse material no interior da lagoa. O resultado dessa combinação é a diminuição do corpo hídrico ano a ano, que pode tornar cada vez mais difícil a navegação na região. “A lagoa hoje é bem menor do que era 20 anos atrás”, diz Sérgio. De acordo com umestudo do Departamento de Geografia da UFRJ, a Lagoa da Tijuca perdeu cerca de 1 quilômetro quadrado de sua área entre 1955 e 2010. “Qualquer intervenção ali precisa de um bom planejamento ambiental para dar certo”, afirma Sérgio.

Hovercrafts

O programa de campanha de Crivella previa a criação de “um sistema de transporte aquaviário ligando todos os condomínios adjacentes às lagoas da Barra da Tijuca à estação do metrô do Jardim Oceanico”. A ideia atual é bem mais modesta e se baseia no uso de hovercrafts, de acordo com informações divulgadas no jornais Extra e O Globo e confirmadas pela prefeitura. Com capacidade para até 100 passageiros, esses veículos se movimentam por meio de turbinas e podem alcançar velocidade de até 60 km/h. Diferentemente do que acontece com as barcas da Baía de Guanabara, o casco do hovercraft não flutua diretamente sobre a água, mas plana sobre ela com a ajuda de saias de borracha laterais. A característica promete ser um diferencial no ambiente da lagoa, já que elimina a necessidade de dragagens para o início da operação.

“A intenção é que a embarcação facilite o deslocamento das pessoas que moram ou trabalham na região”, informaram representantes da Secretaria Municipal de Transportes. O fato da linha levar os passageiros até uma estação de metrô e criar uma alternativa ao carro coloca sua criação em sintonia com a Agenda Rio 2017, conjunto de propostas para a RMRJ defendido pela Casa Fluminense.

A manuntenção mais barata e o menor nível de emissão de poluentes em comparação a outros veículos são algumas das vantagens do hovercraft, segundo especialistas. “Além disso, o fato de ele planar tanto na água como na terra diminui o gasto com estações, que podem ser construídas em solo seco”, comenta Rilley. Para Sérgio, um serviço de barcas eficiente pode atrair usuários que hoje optam por carros ou ônibus e queiram fugir dos engarrafamentos. “Apostar em transporte aquaviário é uma quebra de paradigma que traz benefícios sócio-ambientais”, afirma o fundador do Baía Viva.

Entretanto, essa aposta vem acompanhada de riscos que não devem ser desconsiderados. “Para que uma linha hidroviária valha a pena, ela precisa ser viável econômica e ambientalmente e ter um serviço eficiente”, adverte Rilley. Já Sérgio lembra que a novidade é mais um investimento em transporte público voltado para Barra, região da cidade que mais foi beneficiada com iniciativas do tipo nos últimos dez anos. “Ter barcas na Barra é bom, mas tê-las em São Gonçalo é bem mais urgente”, diz ele. Seu protesto está alinhado com a Agenda Rio 2017, que defende a expansão da rede de transportes hidroviários na Baía de Guanabara. “Dar mais atenção ao que é prioritário pode ajudar a evitar a ampliação das desigualdades”, resume Sérgio.