barra

ÚLTIMAS

Barra da Tijuca: a história de um projeto de cidade

Especialista em planejamento urbano mostra como os Jogos Olímpicos ajudam a consolidar no bairro da Zona Oeste o modelo neoliberal de território

Compartilhe

Uma cidade da elite, de bom gosto, a que o pobre pode ter acesso para trabalhar, mas não para morar, “senão estraga tudo”. Concepções como a de Carlos Fernando de Carvalho, dono da empreiteira Carvalho Hosken, exposta em entrevistas ao jornal inglês The Guardian e ao site da BBC Brasil recentemente, são o resumo de um projeto de cidade que tem na Barra da Tijuca seu principal laboratório. Um modelo nada recente, mas que encontra nos Jogos Olímpicos de 2016 seu maior catalisador.

É o que revela o professor e pesquisador Renato Cosentino em sua dissertação de mestrado em Planejamento Urbano defendida este ano na UFRJ. “As Olimpíadas constroem as bases físicas de um novo eixo do Rio de Janeiro, numa lógica de centralidade imposta pelo mercado e impulsionada pelo poder público”, resume.

Para ele, o crescimento da região administrativa da Barra (onde estão os bairros da Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Vargem Pequena, Vargem Grande, Camorim, Grumari, Joá e Itanhangá) não deve ser visto como natural: “a centralidade não é algo construído naturalmente, como se tenta colocar. Esses centros são criados a partir de investimentos que estimulam o acesso a ele”.

Os donos da bola

Carlos Carvalho, Pasquale Mauro, Tijong Hiong Oei – conhecido como Chinês da Barra – e Múcio Andrade eram os empresários donos da maior parte das terras da Barra da Tijuca em 1980. Hoje, Carvalho e Mauro se destacam. Juntos, têm quase 20 milhões de metros quadrados na região, praticamente cinco vezes o bairro de Copacabana.

Desde o Século XVI, latifundiários dividem os terrenos da Baixada de Jacarepaguá, região entre o Maciço da Tijuca, a Serra da Pedra Branca e o Oceano Atlântico. De início, senhores de engenho e bancos receberam terras do governo português. Os títulos de propriedade de boa parte do território, entretanto, são duvidosos, a ponto de a Procuradoria do Estado ter declarado parte das áreas como patrimônio público em 1939.

Com o passar dos anos, as terras obtiveram valorização considerável, em especial a partir da década de 1970. “O processo de urbanização da Barra da Tijuca reflete uma lógica de negação do público, que tem como base princípios neoliberais”, sustenta Cosentino.

Neoliberalismo como projeto

No Brasil, a hegemonia do modelo neoliberal fica evidente a partir da década de 1990, com as privatizações, a desregulação de alguns setores do mercado e a ideia de que o poder público – e o espaço público, por consequência – deve ser administrado e gerar resultados como uma empresa. No planejamento urbano do Rio, uma das soluções para garantir lucros foi valorizar a região da Barra da Tijuca, onde já existiam condomínios, shoppings, estrutura de transporte incipiente e muitas terras. Os argumentos para o investimento iam da expansão natural da cidade à “centralidade” do bairro – ainda que localizado entre o mar e dois maciços.

Mas a tentativa de fazer da região o novo espaço central do Rio de Janeiro não começa em 1990. Em seu trabalho, Cosentino destaca pelo menos outros dois momentos-chave. O primeiro se dá em 1972, quando o ministro da Indústria e do Comércio do general Costa e Silva sugere que a cidade do Rio concorra à Exposição Internacional (Expo-72), que comemoraria os 150 anos de independência do país. Para recebê-la, é encomendado, então, um plano de urbanização da região da Barra assinado pelo arquiteto Lúcio Costa.

“A parte das Vargens, por exemplo, seria destinada à agricultura, com sítios e chácaras. O local onde seria a Expo, perto da Lagoa da Barra da Tijuca, seria desapropriado para ocupação de casas. Lúcio Costa planejou aquela ocupação dentro do paradigma moderno, que não exclui o mercado, mas que dá ao Estado a função de determinar os diversos usos do espaço”, diz Cosentino.

A exposição não ocorreu, mas as construções na Barra cresceram nas décadas seguintes, incorporando, adaptando ou desprezando o plano de Lúcio Costa de acordo com os interesses de empresários e donos de terra. Como nova fronteira das elites – segundo Cosentino, em 1980, cerca de 40% dos moradores tinham renda familiar acima de 20 salários -, houve uma segunda e radical tentativa de consolidar a região em torno dos interesses do mercado: a separação da Barra da Tijuca do restante da cidade.

Municipalização da Barra

Organizados na Associação de Comércio e Indústria da Barra (Acibarra), donos de terra, imobiliárias, escolas, shoppings, agências de publicidade e outros empresários lançaram campanha em 1987 para que o bairro se tornasse autônomo em relação ao município do Rio. O argumento era que os impostos pagos não voltavam em forma de serviços ou infraestrutura para o local.

Já para os que criticavam a ideia da separação, como a associação de moradores, o próprio Lúcio Costa e a Prefeitura – comandada na época por Saturnino Braga -, o que estava por trás da campanha era a tentativa de grupos econômicos passarem a ter, também, o domínio político. Com isso, o caminho ficaria livre para a especulação imobiliária. O plano de urbanização trazia limites como, por exemplo, o gabarito baixo dos prédios.

Os integrantes da Acibarra e seus parceiros, entretanto, queriam a separação apenas da valorizada área entre Joá e Grumari, deixando fora do novo município as casas, favelas e conjuntos habitacionais da região vizinha de Jacarepaguá. A proposta de autonomia foi aprovada nas urnas, mas não com votos suficientes para criar o município. Apesar da derrota, o capital imobiliário mostrou sua força e desejo de ditar a política urbana.

“A remoção de favelas e o ordenamento urbano comandados por um jovem subprefeito [Eduardo Paes] seria o próximo passo dessa coalizão de poder, mantendo assim os fundamentos da contínua expansão imobiliária”, afirma Cosentino em seu trabalho, fazendo referência às remoções ocorridas na década de 1990 e à forma como o bairro se desenvolveu no período.

Por fim, os Jogos Olímpicos

Quase vinte anos depois, o jovem subprefeito vira prefeito, os setores empresariais ganham força e, em 2009, o Rio é escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016. Parque Olímpico, Vila Olímpica, linha 4 do metrô, campo olímpico de golfe, BRTs Transolímpica, Transoeste e Transcarioca: como já havia ocorrido em 2007, com os Jogos Pan-Americanos, a Barra torna-se o centro das obras e dos investimentos.

Não por acaso, o empresário Carlos Carvalho fazia parte da comitiva oficial brasileira na Dinamarca, no evento de anúncio do Rio como sede dos Jogos. Tampouco surpreende a declaração à BBC Brasil: “as Olimpíadas são uma benesse de Deus para a cidade”. O terreno livre – simbólica e literalmente – que o grupo político-empresarial da região imaginou conseguir com a emancipação em 1987 é conquistado sem maiores contratempos democráticos.

Que o digam os moradores despejados de comunidades locais, como as vilas Harmonia, Recreio e Autódromo. Os bilhões de reais destinados ao projeto olímpico atendem, por fim, à expansão do mercado, valorizando terrenos e retirando trabalhadores das áreas de especulação imobiliária. Os maiores vencedores dos Jogos estão decididos antes mesmo de as Olimpíadas começarem.